Pastoral – A Igreja e o Estado

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A Igreja e o Estado reflexão para um importante momento de mudança!

Uma Pastoral por Jean Chagas

    É fato que a igreja evangélica brasileira tem crescido, tornando-se uma fatia cada vez mais ampla da sociedade. É visível também o avanço da representatividade dos cristãos evangélicos em todos os setores, inclusive nas instâncias do poder político. Contudo, sabemos que essa relação com o poder tem se tornado um fator de grande tensão entre os valores proclamados através da fé e as escolhas éticas feitas por vários líderes religiosos e seus braços estendidos dentro do Estado. É urgente, diante da importante eleição que se aproxima, amadurecer a visão acerca da relação entre a Igreja e o poder político, pois o país clama por mudança ética e social. Qual resposta, nós cristãos, poderemos oferecer através de nossa participação?

Três Abordagens Históricas

    Historicamente, três abordagens têm marcado esta difícil relação da Igreja com o estado. A primeira é a abordagem simbiótica, na qual Igreja e Estado se misturam. Às vezes a Igreja ambiciona ser o Estado e outras o Estado ambiciona ser o portador do poder da Igreja. Desde Constantino, no século IV, multiplicaram-se os exemplos da nocividade dessa postura. A segunda abordagem é fundada na alienação. Na Igreja, essa visão produziu uma atitude de silêncio, acomodação e conivência com a injustiça. No Estado, o fruto da alienação quanto aos cristãos pode ser visto nos governos ateus que se tornaram os mais violentos e reacionários quanto aos seus cidadãos que professavam alguma fé. A terceira abordagem é a colaborativa, na qual Igreja e Estado entendem suas diferenças e compreendem seus papéis, inclusive na relação entre si. O fato de vivermos num estado laico nos dá a real possibilidade de optarmos por uma abordagem colaborativa, claramente mais saudável do que uma relação simbiótica ou alienante.

Igreja e Estado em Colaboração

   Em Mateus 20.20-28 a mãe de Tiago e João tenta intermediar posições de destaque no Reino do Mestre para seus filhos. Jesus responde estabelecendo a diferença da natureza de Seu Reino em comparação com os governos desse mundo. Ao inverter a pirâmide do poder e afirmar que em Seu Reino o maior é o que serve, Cristo mantém a essência singular do evangelho, mas dispõe a vida de seus discípulos para ser uma grande benção no mundo através do serviço. Nem alienação nem simbiose com o poder político, mas cooperação através do sacerdócio e serviço cristãos.

   Numa visão colaborativa, qual é o papel da Igreja quanto ao Estado? Os discípulos de Jesus, por entenderem seu sacerdócio espiritual, devem buscar orar por seus governantes e por sua nação. A crítica pela crítica precisa ser trocada por súplicas com ações de graças. A denúncia profética contra a injustiça proclamando uma cultura de paz e em favor da vida deve ser outra prerrogativa dos cristãos. Ao cederem ao interesse do poder, muitas comunidades evangélicas têm se associado a partidos e candidatos, anulando sua necessária neutralidade e com isso perdendo sua voz. Além da oração e da voz profética, a Igreja deve exercer seu papel pastoral, auxiliando o Estado no cuidado com os aflitos desse mundo, sendo uma mão de misericórdia e esperança para muitos que o poder político não consegue alcançar. Por último, manifestar os valores do Reino de Deus através de sua participação democrática nas discussões e elaborações de políticas públicas justas e eficazes.

   Numa visão colaborativa, qual é o papel do Estado quanto a Igreja? Ele deve garantir a liberdade de culto e expressão de fé como um direito constitucional e uma conquista da democracia. Do ponto de vista cristão, esse cuidado é um mandato de Deus ao poder público. Também cabe aos governos inserir a comunidade cristã nos debates de temas relevantes à sociedade, sem reprimir o direito da Igreja de pronunciar-se a partir de sua cosmovisão bíblica. Por último, promover canais de cooperação sem a ambição de tomar para si a influência das comunidades cristãs como forma de perpetuação no poder ou controle das massas.

Implicações para os Cristãos

   O Novo Testamento orienta sobre esses papéis entre Igreja e Estado em relação a um para com o outro. Em 1 Timóteo 2.1-4 somos ordenados a apresentar as autoridades diante de Deus com orações e súplicas. Outro texto clássico é Romanos 13.1-7 onde somos responsabilizados em nosso papel cívico e chamados a perceber o Estado como meio do exercício da justiça e contenção do mal. A espiritualidade que agrada a Deus socorre os sofridos e foge da contaminação do mundo, conforme está escrito em Tiago 1.27. Onde caberia, portanto, ao cristão, a justificativa para a omissão cívica ou para conivência com os interesses escusos que envolvam a política?

   Ao alinhar sua percepção teológica e ética com os princípios acima, algumas implicações precisam ficar explicitadas: Os cristãos devem orar por seus governantes e exercer a misericórdia e a justiça através de sua cidadania. Tanto alienação como mistura de interesses a qualquer preço devem ser abandonados. Necessitam votar com profunda consciência de responsabilidade diante de Deus e por seu país. A Igreja deve reconhecer como grande bênção para a nação o fato de Deus vocacionar pessoas cristãs para a política partidária e apartidária (Provérbios 29.2). Contudo, ela não pode render-se a um projeto de poder político-estatal, pois perderá sua voz isenta e sua autoridade moral, mas deve dispor-se a servir à sociedade com ênfase nos aflitos e desamparados.

   Concluo, apelando à nossa consciência diante de Deus, para que sejamos sensíveis ao quanto o pais necessita de nossa participação. O momento requer mudança e a construção de um novo padrão ético para a nação. Será a Igreja um elemento de construção ou desilusão? A resposta passa pela conversão de cada cristão àquilo que a própria Palavra de Deus já nos instrui.

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